A valorização do real é pontual ou deve continuar?

Brasil precisa demonstrar alguma estabilidade fiscal e seriedade na condução das políticas públicas, pois os estrangeiros estão muito propensos a investir no País, diz André Sacconato economista, consultor da FecomercioSP e integrante do CEEP.


A taxa de câmbio vem surpreendendo os analistas neste início de ano. O dólar, que já bateu quase R$ 5,80, em janeiro, chegou à mínima de R$ 5,05, em fevereiro, um mês depois do pico. O euro também apresentou a mesma dinâmica: baixou de R$ 6,42 para a mínima de R$ 5,74.

A questão que todos querem responder é o que causou esta repentina valorização e se ela deve continuar.

Primeiro, vale dizer que o fato é oriundo de investidores estrangeiros que vêm buscar ativos brasileiros para investir. Os recentes aumentos da taxa de juros pelo Banco Central (Bacen), de 2% para mais de 10%, são um dos pilares desta entrada – lembrando que o banco central norte-americano continua mantendo sua taxa de juros próxima a zero. Isso faz com que os títulos nacionais sejam muito atrativos para investidores daquele país.

Outro fator primordial é a entrada de recurso dos estrangeiros na Bolsa brasileira. Só até 18 de fevereiro, foram R$ 55,8 bilhões. E este valor é liquido, já descontadas as saídas de capital para fora do País.

Só em fevereiro, até o dia 18, foram R$ 23,3 bilhões em novas entradas. E aqui vai um fator interessante: a Bolsa só não teve um desemprenho melhor porque os fundos nacionais estão saindo destes papéis.

É interessante notar que os estrangeiros não estão buscando o Brasil como um todo. A busca é mais direta: commodities. Com um ambiente externo muito complicado para economias em desenvolvimento, como Rússia e Argentina, e os preços de commodities, principalmente agrícolas, subindo muito, os estrangeiros começaram a olhar para o Brasil.

Reforçam este movimento o dólar mais valorizado e o preço das ações brasileiras em baixa, além da ligeira calmaria nos assuntos econômicos e políticos nacionais.

No entanto, uma análise um pouco mais aprofundada mostra que esta não parece, pelo menos ainda, ser uma tendência de longo prazo. As incertezas eleitorais, o cenário fiscal ainda sem muita definição – dados os constantes ataques ao teto de gastos – e a fragilidade do mercado de trabalho e da produtividade impõem um cenário conservador à frente.

A recente valorização do câmbio revela mais uma fragilidade dos destinos concorrentes dos dólares (Rússia e Argentina, por exemplo) do que uma maior solidez das políticas internas.

O maior exemplo desta incerteza é que os 17 registros de IPOs (lançamento primário de ações) na CVM foram cancelados. As empresas desistiram de fazer o lançamento, pois imaginam que o cenário está muito nebuloso. O mesmo movimento temos visto de empresários, brasileiros e estrangeiros, que preferem adiar investimentos adicionais para depois da eleição.

A maioria mantém seus negócios no País, além de investimento suficiente para garantir o nível e a qualidade de bens e serviços, mas reluta em investir em novas plantas ou tecnologias. Isso pode ser observado nos dados sobre investimentos estrangeiros diretos no Brasil: eles não secaram, mas estão bem menores do que nos anos anteriores à pandemia.

De qualquer maneira, este fluxo recente ensina muito a nossos formuladores de políticas econômicas. Basta o Brasil demonstrar alguma estabilidade fiscal e seriedade na condução das políticas públicas, pois os estrangeiros estão muito propensos a investir aqui. Este processo pode gerar renda e emprego a longo prazo, além de legitimar economicamente qualquer governo.

Não adianta gastar mais do que deveria agora, porque o custo será muito maior depois. Infelizmente, como já dissemos, esta conjuntura de valorização parece ser, ao menos agora, mais pontual do que uma tendência.


Fonte: FecomercioSP