Comércio exterior: crise portuária exige que empresas repensem processos da cadeia logística global


A maior crise portuária dos últimos 65 anos, que vem ocasionando uma alta nos preços dos fretes internacionais, exige que as empresas atuantes no comércio exterior repensem por completo a sua cadeia logística. De acordo com o diretor-executivo da Maersk Brasil, Julian Thomas, os desafios vão continuar existindo – e não se pode esperar uma solução de curto prazo. O tema foi discutido no evento Crise dos Portos e Preço dos Fretes Internacionais: Quando Voltamos ao Normal?, realizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), na última quinta-feira (18). O encontro, que reuniu empresários, gestores e especialistas no assunto, debateu os impactos da situação atual e propôs caminhos possíveis à normalização, bem como expectativas para a regularização.

O comércio global atravessa uma das piores crises portuárias em mais de seis décadas. De maneira geral, a pandemia e a consequente necessidade de implementação de medidas de isolamento social provocaram a paralisação das linhas de produção ao redor do mundo, com destaque para o continente asiático. O fato de as indústrias e os fornecedores de matéria-prima terem permanecido fechados ou operando bem abaixo da capacidade de produção gerou um atraso na cadeia de abastecimento.

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Além disso, a partir do terceiro trimestre do ano passado, a economia mundial registrou uma retomada acelerada, motivada pelas políticas monetárias expansionistas – redução das taxas de juros e injeção de dinheiro na economia –, gerando um aumento da demanda, além da própria reabertura da economia, conforme os números de casos e mortes relacionados à covid-19 diminuíam.

O atraso na cadeia de abastecimento, somado à retomada acelerada da economia mundial, gerou um desequilíbrio na cadeia logística global, a qual não estava preparada para atender ao alto volume de cargas. Assim, passou-se a observar fila em portos, congestionamento de navios e faltas de contêineres, navios e espaço para embarque da carga, conjuntura que levou ao aumento nos preços dos fretes internacionais.

Rubens Medrano, vice-presidente da FecomercioSP e presidente do Conselho de Relações Internacionais (CRI) da Entidade, lembrou que a covid-19 gerou inúmeras consequências em todas as atividades comerciais, e com o comércio internacional não foi diferente, já que o setor é altamente dependente da logística e, principalmente, da logística marítima – 90% das importações ou exportações são realizadas por este modal. Para ele, o aumento considerável dos preços dos fretes internacionais, entretanto, não é apenas uma consequência momentânea da crise sanitária e precisa ser pensado em um contexto amplo.

“É um problema que já ocorre há muito tempo e que temos de considerar sob o ecossistema do comércio internacional. Quando falo em ecossistema, especifico o modal marítimo, o transporte marítimo, os portos, os operadores portuários e alfandegários, o setor de transporte rodoviário (uma vez que, para os contêineres chegarem aos portos, nós o utilizamos) e, lá no fim da linha, temos os importadores e exportadores.”

Neste sentido, o diretor-executivo da Maersk Brasil destacou que os elementos que causaram a crise atual na logística global já existiam antes da pandemia. Segundo ele, durante a crise sanitária, as formas de trabalho avançaram “dez anos”, porém, a digitalização dos processos na cadeia logística ainda está muito atrasada em relação a outras indústrias.

“A Internet das Coisas, o Big Data no transporte de contêineres em larga escala, está chegando. E, pela pandemia, está acelerando. Isso promete um aumento de eficiência e a redução de burocracia. Vinte por cento do custo do comércio internacional estão ligados ao papel, aos processos manuais, que os stakeholders precisam vencer”, analisou.

A perspectiva, segundo ele, é que a demanda do comércio global aumente entre 2% e 4%, no ano que vem. Desta forma, 2022 deve continuar sendo um período de desafio quando se analisa capacidade versus demanda. A expectativa é que a situação volte a ter algum equilíbrio em 2023. No entanto, é necessário criar processos mais simples, e o único jeito de atingir este objetivo é pela digitalização e pela integração dentro das empresas (e entre as empresas) que atuam na logística, do exportador até o importador.

Remodelação do mercado global

Diante deste cenário desafiador, é preciso rever a cadeia logística como um todo para entender o que ainda funciona e ajustar o que for necessário, de modo a trazer melhorias para os negócios. “O mercado global de comércio exterior está se remodelando, assim como as parcerias logísticas e as estruturas tributárias. Então, vale muito a pena olhar toda a cadeia de supply”, comentou Victor Motta Rodrigues, head de Novos Negócios da Timbro Trading.

“Nós, atualmente, temos um dilema: as mercadorias levam muito mais tempo para chegar – e chegam mais caras. Então, nós precisamos repensar, discutir, debater o que vamos fazer com isso”, destacou Rodrigues. “O que nós temos visto como importadores é que não está muito claro qual será o fim deste círculo vicioso de aumento de custos e demora nos tempos.”

Marcelo Allain, consultor, membro do Conselho de Economia Empresarial e Política (CEEP) da FecomercioSP, sócio-diretor da BR Infra Group e senior advisor do Boston Consulting Group (BCG), ressaltou, no entanto, que apesar de todo o panorama, a oferta está se normalizado para se aproximar da produção necessária, a fim de atender à nova realidade de demanda. Entretanto, segundo ele, o desabastecimento no varejo para vendas em datas festivas ainda é uma preocupação.