Descarbonização e fim do desmatamento são dois pilares fundamentais no combate à mudança do clima, a


(Foto: Divulgação - IPCC)

De uma forma ou de outra, os efeitos da mudança do clima já são claros em todas as partes do mundo. Em um curto espaço de tempo, e em diferentes países, têm ocorrido mais eventos extremos como secas, calor excessivo, incêndios, fortes precipitações de chuvas, inundações, furacões e falta de água para consumo.

“No Brasil, isso também se vê na falta de água nas hidrelétricas. É um cenário em que se pode imaginar que estas coisas, que sempre aconteceram, irão continuar acontecendo com mais intensidade e maior frequência. Em vez de nos acomodarmos, deveríamos trabalhar em como reagir. Precisamos de líderes. E o Brasil tem um grande potencial para ser um líder [neste esforço]”, avalia Thelma Krug, matemática, estatística e vice-presidente do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP.

Em agosto, o IPCC publicou um novo relatório com os impactos do aquecimento global e das mudanças do clima, indicando que estão ocorrendo mais rapidamente do que se imaginava, em razão da ação humana na emissão de gases poluentes e dos enormes impactos regionais dos desmatamentos. No mesmo sentido, dois outros eventos que irão afetar a vida na terra são o constante aumento no nível dos oceanos, graças ao degelo no Ártico, e os prejuízos nas produções de alimentos ao redor do mundo – efeito deletério, também, do desmatamento.

Em uma versão anterior, o relatório já havia atribuído ao homem o aumento de temperatura média global de 1,1°C em relação aos tempos pré-industriais. Thelma esclarece que não há como não se considerar a interferência humana neste processo, tendo em vista que é mínima a contribuição de elementos que causam variações naturais, como erupções vulcânicas, alteração da radiação solar, El Niño e La Niña. E mesmo que se parem de uma vez todas as atividades que exploram o carbono, o aumento do nível do mar, por exemplo, continuaria a se elevar por séculos, ela enfatiza. Limitando-se o aumento da temperatura, conseguiria-se apenas retardar muitos dos resultados. “Temos esperança de que os efeitos não se estabilizem em um ponto no qual não haja retorno, com consequências bastante dramáticas”, a estatística pondera.

“São mudanças em vários elementos do sistema climático, e não apenas na temperatura. O relatório de agosto mostra que alguns dos eventos extremos de calor que ocorreram nas últimas décadas seriam extremamente improváveis. O IPCC quantifica isso: quase zero de possibilidade, sem a interferência humana.” Thelma também aponta que vivemos em um momento singular, porque não houve outro período na história do planeta em que mudanças no clima não tivessem ocorrido em escala geológica, isto é, durante milhões de anos. “A concentração de CO2 [dióxido de carbono] em 2019 não tem precedentes em 2 milhões de anos.”

Ela também comenta a dificuldade de se concretizar o fim da queima de combustíveis fósseis, que têm enorme contribuição na emissão de gases de efeito estufa. Atacar o problema pela raiz seria falar em uma complexa alta descarbonizarão. Para se garantir um aquecimento em torno de 1,5°C, com efeitos severos, seria necessário um net (líquido) zero de emissão de CO2 até 2050. “[Contudo], hoje, o CO2 é a base de tudo, do transporte, das edificações, dos processos industriais, etc. Seria uma transformação sem precedentes”, complementa. “Eu singularizaria a descarbonizarão e a questão do desmatamento como grandes pilares.”

“[Ainda assim], não existe apenas este futuro, existe uma diversidade; e a escolha é nossa. Estas escolhas terão grandes impactos em todos os setores da economia. Se alguém achar que adotar ações de mitigação e revisar toda a estrutura de produção terão efeitos [negativos] na economia, precisa entender que, no futuro, os prejuízos serão tão maiores, será inviável; estamos falando em seca e falta de água”, conclui. A entrevista foi comandada pelo jornalista Renato Galeno.


Fonte: Fecomercio